Se você é motorista e ganha por comissão, provavelmente já ouviu do escritório algo como "esse frete deu tanto, sua parte é essa". E você aceita, porque não tem como conferir. O valor do frete quem sabe é a empresa.
Só que tem um documento que sabe também. E ele é público.
O conhecimento de transporte
Todo frete gera um documento eletrônico, o conhecimento de transporte. Nele está escrito quanto o cliente pagou pelo transporte daquela carga. É documento fiscal, não dá pra inventar.
Sua comissão deveria sair em cima daquele valor. E é exatamente aí que muitos escritórios apertam: informam um valor menor pro motorista, e a porcentagem sai sobre esse valor menor.
Um exemplo pra ficar claro: o frete custou dez mil reais e você ganha dez por cento. Sua parte é mil. Mas se te disseram que o frete foi de sete mil, você recebe setecentos. São trezentos reais que sumiram num único frete. Multiplica por quatro fretes por mês, por três anos.
Não é conta pequena. Já vi caso em que o gestor da transportadora reconheceu, numa conversa gravada, que a comissão era calculada em cima de um valor menor que o do conhecimento. Uma frase só resolveu o processo.
Como conferir sem brigar com ninguém
O que você pode juntar
- Foto ou cópia dos conhecimentos de transporte que passaram pela sua mão
- As filipetas ou canhotos de cada viagem
- Conversa de WhatsApp em que combinaram o valor do frete
- Extrato bancário mostrando o que entrou de fato
- Contracheque, pra comparar com o que caiu na conta
E se você não tem nada disso guardado? Continua dando. A empresa é obrigada a apresentar os documentos quando o juiz manda. Se ela não apresentar, ou apresentar pela metade, isso pesa contra ela, não contra você.
Desconfia que sua comissão vinha errada?
Me conta como funcionava: qual era a porcentagem, quem te informava o valor do frete, se você via o conhecimento. Com isso já dá pra saber se vale investigar.
Contar como funcionavaO salário na carteira menor que o real
Esse é o irmão gêmeo do problema anterior, e costuma vir junto.
Muita transportadora registra na carteira um salário pequeno e paga o resto por depósito, PIX ou dinheiro. Chamam de ajuda de custo, prêmio, ajuda combustível, o nome muda.
Do ponto de vista do motorista, parece até melhor: cai mais líquido. Mas repara no que você perde:
- FGTS menor, porque calcula em cima do salário registrado
- Férias e décimo terceiro menores, pelo mesmo motivo
- Rescisão menor, quando você sai
- Aposentadoria menor, porque o INSS registra o valor pequeno
- Seguro-desemprego e auxílio-doença menores
O que você ganha de líquido hoje, você perde várias vezes lá na frente.
E a prova disso é fácil: extrato bancário. Se todo mês entrava um valor da empresa além do contracheque, o extrato mostra. É uma das provas mais fortes que existem, e você já tem, é só pedir no aplicativo do banco. Guarde os últimos cinco anos.
Reconhecer o salário real muda tudo
Aqui está o que faz esse ponto ser o mais importante de todos: quando o juiz reconhece que seu salário era maior do que o registrado, todo o resto do processo é recalculado por cima do valor de verdade.
A hora extra sobe. O adicional noturno sobe. A periculosidade sobe. Férias, décimo terceiro, FGTS, tudo sobe junto.
Já vi caso em que o contracheque dizia dois mil e duzentos e o extrato provava oito mil por mês. Reconhecido o valor real, o processo praticamente quadruplicou de tamanho — e não foi por pedir mais coisa, foi por calcular certo o que já estava pedido.
Resumindo
- Sua comissão deve sair sobre o valor do conhecimento de transporte
- Se informaram valor menor, você recebeu menos, e dá pra cobrar
- Pagamento por fora diminui FGTS, férias, décimo terceiro e aposentadoria
- Extrato bancário é prova forte, e você já tem
- Reconhecer o salário real aumenta todo o resto do que você tem a receber
